O Estrangeiro, de Camus (1942), é uma das maiores pegadinhas da história da literatura.O Estrangeiro, de Camus
Vamos aos fatos: na Argélia colonial francesa, um homem mata outro por motivo absolutamente fútil. Pior que fútil. Não havia motivo algum. Ele recebe um julgamento justo, é condenado à morte e, depois, executado.
Nada poderia ser mais straight forward, simples e previsível.
Na verdade, a grande surpresa do enredo acontece depois que o livro é fechado: subitamente, Mersault passa de algoz a herói. 99% dos leitores saem de O Estrangeiro do lado de Mersault, como se ele fosse algum injustiçado, como se ele fosse uma vítima inocente do sistema.
Camus distorce tanto nossa percepção, ficamos tão concentrados nos esforços da promotoria em condenar Mersault não pelo crime, mas por ter ido ao cinema no dia da morte da mãe, que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!
A promotoria pode até ter provado seu caso por vias tortas, usando argumentos que nada tinham a ver com o crime, mas nós, leitores, sabemos que Mersault merece sua punição.
Ou melhor, deveríamos saber, se não caíssemos no conto de Camus.
